CRÔNICA - Mangás

Tenho uma quantidade enorme de trabalhos para fazer e uma pesquisa para realizar, porém, hoje uma gripe chegou e me deixou todo molenga e sem vontade de fazer porcaria nenhuma. A internet também não presta, talvez por causa da linha telefônica defeituosa.
            Vou ler mangás. Lembro há uns anos atrás quando comprava essas belas revistas em quadrinhos numa proporção de deixar qualquer otaku com inveja. Aliás, otaku de verdade no Brasil é raro, mas aqui não é momento de expor essa situação. Pego o número um de 20th Century Boys e começo a leitura.
            Absorto, página por página, paro apenas para comer enquanto assisto a um programa sobre uma loja de penhores na TV. Termino a refeição e caio na leitura novamente. A vida dos garotos da história é simples, como a de qualquer outro, inclusive a minha. Por quê? Porque eles sonhavam, viviam em outro mundo dentro de suas mentes, assim como deve ser com quase todas as crianças. Mas eu não sou uma criança, sou um homem de vinte anos de idade. Mas eu sonho. Creio ser o adulto do qual falava Saint-Exúpery no Pequeno Príncipe. A maioria acha que caras como eu são simplesmente idiotas.
            Escrevi no roteiro de Phileas Vitae, meu próprio mangá, uma fala assim: “Somos todos loucos, a diferença é que uns admitem e outros não”. Felizmente, ou não, eu admito. Acho que, se todos nós admitíssemos, seríamos mais felizes, pois não haveria tanta preocupação com coisas como status etc. Mas também as coisas talvez fossem banalizadas. Quem admite ser maluco é artista, e se alguém se diz artista, mas não se diz louco, então artista não é. Lógica de maluco, se é que me entende.
            Mangás me trazem à memória cenas do meu velho quarto, o qual chamava carinhosamente de “caverna”, visto que era escuro (a janela dava diretamente na janela do vizinho, então deixava a persiana fechada). Ali comecei a ler quadrinhos de todos os tipos e se tornaram uma paixão. Hoje, quando estou estudando Letras na universidade, vejo muito preconceito em cima de meus queridos quadrinhos. Claro que nem todos são assim, o problema é que os que agem dessa forma são os que, provavelmente, tem um ótimo futuro acadêmico. E pensar que essa gente diz que mangás não tem nada de profundo... Lamentável.
            A academia ganhou meu descontentamento e raiva por causa desse tipo de atitude. A academia é nojenta. Maldita formadora de opiniões errôneas e elitistas, mas ainda adorada por alguns. O mais triste é que, provavelmente, deverei me sujeitar a ela. No mundo dos adultos, pode acontecer de você ter que abdicar do que ama em prol de quem ama. Isso é muito triste. Mas é uma escolha. É muito mais simples fazer um mestrado, doutorado e depois passar num concurso para trabalhar numa universidade do que ser um mero artista. Ninguém te conhece, então quem é você para dizer que é artista? O que faz de você um escritor? Já escreveu um livro? Triste, apenas triste.
            Minha paixão por mangás coincide com meus momentos saudosistas, como este em que escrevo este monte de palavras estranhas. Acho que, o que eu realmente precisava, é de ter a visão da infância no mundo inteiro. Se todos seguíssemos nossos sonhos, seríamos mais felizes, não haveria brigas por status etc.
            Eu tenho um monte de trabalhos para fazer... Mas vou passar a noite lendo mangás.

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