CRÔNICA - A Arte do Professor Cotrim

                  Cotrim era um homem inteligente, de boa aparência e bem empregado. Ele era um escritor muito famoso e professor do curso de Letras na universidade. Ele sempre se sentiu virtuoso, possuidor de uma inteligência acima da média, um conhecedor dos seres humanos e homem sensível.
           A arte era seu foco principal. Amava esculturas fantásticas, aquilo que chamamos de arte moderna, sabe? Em suas aulas ele sempre afirmava a soberania da arte, como ela era capaz de gerar emoções, de chocar o leitor e fazê-lo refletir acerca da própria existência e a do mundo ao seu redor. A F de Marcel Duchamp era uma de suas obras favoritas.
           Mas existia um porém: Cotrim era um homem um tanto quanto preconceituoso. Quando questionado por seus alunos acerca de O Senhor dos Anéis, ele logo afirmava:
            — Isso não é Literatura!
           Isso porque ninguém teve coragem de perguntar a ele sobre Harry Potter ou Eragon. O interessante é que Cotrim nunca lera nenhuma dessas obras. Ele amava Tchekhov, Dostoiévski, Kafka e outros clássicos, tem bom gosto, mas não justificava sua atitude.
            Um dia, em uma de suas aulas, um aluno novamente colocou O Senhor dos Anéis em cena. O exército de Gondor se armou. O rei bruxo se levantou de seu trono escuro para defender seu senhor Sauron.
            Os senhores dos homens corriam em direção ao seu destino, a guerra deveria ser vencida. Com espadas empunhadas eles cantavam canções majestosas e davam gritos de guerra! O rei bruxo empunha sua massa gigantesca e aplica um golpe. Fatal, morte, dor, sanguinolência, ignorância.
            Vitória de Cotrim. Com uma palavra fatal joga anos de labor literário no lixo.

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